terça-feira, 10 de maio de 2011

Importância estratégica da Cultura

Sou rato de livraria. Confesso. Quando saio para algum cinema desses cujo circuito fica em shoppings (me permito ver blockbusters tanto outras formas de cinema), não me nego ao prazer de passear pelas livrarias - geralmente infelizmente apenas uma ou duas - que existem por lá. São universos condensados em páginas, prensados em papel que, uma vez abertos, correm o sério risco de abrir nossas mentes também. Quando procuro por livros quero saber ao menos um pouco da biografia do autor. Quem é aquele sujeito ou aquela digna senhora risonha que pretende que eu compre um bloco impresso de suas idéias, que eu tenha intimidade com elas a ponto de levá-los no colo até a rede da varanda para mergulhar no seu universo interior? Preciso me interessar pelo tema, sem dúvida, mas observo sempre - vícios da profissão - com que interesse aquela obra foi escrita, qual o pano de fundo do autor.

"Quem é que está falando?"
Acontece a mesma coisa com os treinamentos. Quando procuramos treinamentos, quando buscamos cursos e palestras que possam efetivamente agregar conteúdo e conhecimento prático a nossas vidas, buscamos as formações dos que as ministram. Queremos saber em que a palestrante da palestra de "liderança" é formada, qual a experiência do palestrante de "coach" no assunto em que ele está palestrando etc. Toda essa preocupação é extremamente genuína, afinal, teremos uma a três horas do nosso dia dedicadas a escutar o que essa pessoa tem a dizer, sem contar o tempo de translado que muitas vezes acontece também.

Naturalmente pensamos "é bom que seja bom!" e nesse ponto entram os especialistas em marketing pessoal, em luz, câmera e ação para fazer o estudo cromático da palestra, organizar as credenciais, as dinâmicas certas, as falas corretas, as movimentações de palco e tudo o mais envolvidos na atmosfera do treinamento, curso ou palestra. E é justo que assim seja e até esperado.

Intenção, viés, perspectiva
Toda essa preparação é importante seja qual for o tipo de palestra a ser ministrada. O que não se pode é perder de vista o conteúdo da palestra, esquecer o fundamento prático a ser desenvolvido depois dela e ficar fascinado por uma "pirotecnia" momentânea.

Uma palestra deve iluminar novas perspectivas de vida e, ao contrário do show, cuja essência se encerra em si mesmo e no ato de estar presente no momento - quase mágico - em que ele ocorre, a palestra deve, ao menos, incutir dúvidas interessantes, demolir algumas certezas infantis, alicerçar (mesmo que de leve) alguns novos pontos de vista e trazer um gostinho de novidade para depois dela. Esse ano decidi que só vou a shows se eu puder realmente dançar neles ou ouvir a música e me perder nela. Palestra eu vou para aprender algo novo, para conhecer novas perspectivas e profissionais interessantes. Talvez até para uma parceria, mas não para um show.

Quando vou a uma palestra sobre treinamentos ou coaching compreendo que vá ouvir muita coisa de que já estou ciente a algum tempo já que trabalho na área, mas espero ao menos ouvir algo em torno de 20 a 30% de novidade, afinal pelo menos é uma pessoa nova falando! Que o assunto não seja novo é compreensível e esperado muitas vezes, mas ao menos o viés, a perspectiva, a intenção, o foco! Gosto quando me pego rindo de canto de boca no meio de uma apresentação porque o palestrante uniu duas idéias que não me eram tão particularmente similares, gosto quando me pego aplaudindo de pé genuinamente. E aplaudo e sinto meu dia ganho com essas situações. E fico imaginando o que posso fazer, onde posso trabalhar para que meus ouvintes tenham sempre essa impressão das minhas palestras, sejam completamente leigos ou colegas de profissão.

Showman, mas com conteúdo!
Nada contra pessoas que sejam naturalmente engraçadas e divertidas no palco, que tenham intimidade e naturalidade com a audiência, isso é maravilhoso! É até esperado, se considerarmos os treinamentos de palco, rapport e técnicas de comunicação que temos antes de virarmos trainers em programação neurolingüística (pnl), por exemplo. Mas a forma não deve suprimir o conteúdo. O conteúdo de um palestrante, suas leituras, suas experiências, sua trajetória e descobertas, deve ser um rio caudaloso jorrando pela forma. Seja a forma de um coach, com perguntas poderosas e significativas para a platéia, instigando e fazendo refletir, seja a forma de um treinador em pnl com dinâmicas, técnicas e conhecimentos específicos da área. Quem já viu uma palestra do Anthony Robbins por exemplo sabe do que estou falando. Ou do Tom Best. Modelos completamente diferentes de palestrantes que prendem pela forma e pelo conteúdo. Um com show externo, outro com show interno.

Como um caldeirão criativo, o conteúdo do palestrante necessita ser claramente superior ao que possa caber no tempo da palestra. Quando, ao final de uma palestra, parece que o palestrante esgotou seus conhecimentos ou suas metáforas, que já está se tornando repetitivo e cansativo, ou respondendo perguntas através de frases feitas ou mantras superficiais, qual será meu interesse em fazer um treinamento com ele? Ou comprar seu livro ou querer conhecer melhor seu método? É importante que ele tenha não só conhecimento na área sobre a qual palestra, mas um certo domínio de uma cultura geral que o proporcione abarcar outros mapas quando estiver palestrando.

Conhecer mil mapas
Faz parte de uma das pressuposições básicas da pnl "o mapa não é o território", ou seja: minha representação do mundo (mapa) não é o mundo (território), de forma que a melhor maneira de garantir que minha mensagem seja passada para as mais diversas pessoas (e nunca sabemos quem estará presente) é falar através de diferentes metáforas, de diferentes campos do conhecimento. Por isso bons palestrantes de pnl são fenomenais, porque compreenderam que precisam ser internamente ricos para que possam ser melhor compreendidos e que se tornem mais interessantes, como pessoas e como profissionais.

Importância estratégica da cultura
Nunca confiei em comentadores. Concordo com Nietzsche quando ele diz: "...os intermediários falsificam quase involuntariamente o alimento que transmitem: além disso, como recompensa de sua mediação, pedem demais para si: interesse, admiração, tempo, dinheiro e outras coisas, de que ficam, portanto, privados os espíritos originais e produtivos.". Esse é mais um dos motivos pelos quais só trabalho com criações minhas. Não vejo nada mais enfadonho que uma palestra de um treinador falando sobre o fantástico desenvolvimento da idéia X do indivíduo Y. A menos que o indivíduo em questão esteja em outro plano existencial eu vou querer aprender com ele, diretamente, e não com o comentador. Aplico no trabalho o que aplico nos estudos. Leio direto os filósofos, se possível em suas línguas originais, depois posso até me interessar por um orientador, mas nenhum nunca teve a paixão e a riqueza que o original, até hoje.

Me importa a pessoa do palestrante, sua experiência pessoal com o que está veiculando. E para que a pessoa do treinador se faça ouvir para além da "pirotecnia" possível em uma palestra, é natural que se torne um ser que desafia minhas concepções de mundo, que me instiga a ir além nas minhas descobertas, que me enriqueça pelo simples fato de estar ali se comunicando comigo, enfim, um ser humano interessante.

"Quem abrir um livro de um filósofo de verdade, de qualquer época, de qualquer país, Platão ou Aristóteles, Descartes ou Hume, Malebranche ou Locke, Spinoza ou Kant, sempre encontrará um espírito rico em pensamentos, que possui o conhecimento e inicia no conhecimento, e que, sobretudo, se esforça sempre sinceramente para comunicar-se com os outros; por isso ele recompensa imediatamente seu leitor, a cada linha, pela fadiga de ler." - Arthur Schpenhauer

Renato Kress
Diretor do Instituto ATENA
www.institutoatena.com

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Armadilhas pessoais: Ego, vaidade, autosabotagem e autopercepção

Nessas últimas semanas observei um comportamento no mínimo estranho dentro de um grupo de coaches de que faço parte no facebook. Me causou um certo espanto a declaração de um dos membros de que ele era o "melhor do Brasil" e que para comprovar isso bastava colocar no google e procurar por essas palavras-chave  - respectivamente "melhor coach do Brasil" - que encontraríamos o nome dele. 

Para além do fato de que o trabalho de coach é um trabalho de caráter pessoal e, portanto, deve ser medido por indicadores subjetivos, me impressionou na realidade a demonstração clara do que chamo a alguns anos de "malícia inocente", aquela espécie de malícia pueril digna de quem sequer cogita a existência de outras pessoas e subestima tanto a malícia quanto a inteligência alheia. Acima disso e muito mais grave que isso, subestima uma regra básica de conduta que já faz parte da cultura ocidental há mais de três mil anos (sim, muito antes de Cristo): Toda hýbris (conceito grego que significa "descomedimento do ego") será retaliada. Não demorou para que aparecessem vários colegas de profissão alertando ao autoproclamado "melhor" os perigos do egocentrismo.

Caminhos e descaminhos
O mito de Narciso, inevitável para quem pensa seriamente sobre o assunto, me vêm à mente enquanto escrevo essas pequenas considerações. Narciso, embevecido pela própria imagem no reflexo das águas paradas de um lago deixou-se definhar, sem comer ou beber, apenas admirando a própria beleza. Essa versão do mito me agrada mais pela carga simbólica que comporta. O deixar-se definhar sob águas paradas é justamente o deixar de admirar a riqueza alheia - em bom "pnlês" se é que esse idioma existe, ele deixou de admirar a riqueza dos mapas alheios, sua diversidade e os fluxos que advém dessa interação. Ele deixou de interagir. Para os gregos antigos o movimento das ondas e das águas simbolizava a vazão das emoções, o fluxo que sustenta nossa vida afetiva. O fato de Narciso estar hipnotizado por si mesmo sobre águas paradas simboliza justamente essa concepção de que os sentimentos se fixaram num único ponto e deixaram de fluir. Quando nossos sentimentos e percepções deixam de fluir porque ficaram estagnados em qualquer objeto de afeição (seja nós mesmos, seja apenas outra pessoa ignorando a nossa própria beleza, seja um grupo específico de indivíduos em detrimento do resto da humanidade) nós simplesmente deixamos de aprender, efetivamente definhamos e morremos.

Na medida em que a vida trata da mudança constante, cristalizar-se em qualquer ponto é negar a vida, sua riqueza, suas transformações, suas possibilidades, é mostrar uma visão muito estreita tanto de si mesmo quanto do universo ao redor.

O problema da "malícia inocente"
Em primeiro lugar, se pretendemos realmente ser estrategistas em nossas vidas, empresas ou projetos, precisamos urgentemente perder um pouco do que chamaremos de "malícia inocente". A "malícia inocente" é essa noção pueril (infantil) de que existe uma e apenas uma resposta, sistema ou forma de encarar o mundo que é válida, eficiente, eficaz e funcional. O caso crônico (grave) da "malícia inocente" é a crença arraigada de que alguém vai transformar essa solução milagrosa para os problemas da humanidade em um sistema, criar um livro, um método ou uma nova ciência e nos vender (geralmente na seção de promoções! Veja você!).

Isso é muito bom para criar campanhas de marketing - transformar determinado produto, livro ou idéia em algo completamente absoluto e indispensável -, mas em estratégia é um erro básico. Apoiar-se em uma única fórmula de ver o mundo: teoria dos jogos, teoria dos sistema, física quântica, administração clássica, hipercompetitividade a qualquer custo, busca patológica por "líderes" ou "lideranças", o que for, além de privar a todos nós da riqueza e da variedade da realidade - que sempre está para além de todas as teorias e leituras possíveis -, vai tornar-nos dependentes dessa visão que, uma vez derrotada, nos levará imediatamente ao desespero, perda de referências, estresse, desilusão, perdas financeiras e por aí vai, descendo a ladeira como bola de neve em desenho animado.

Eu sou meu maior inimigo
Em treinamentos e em coaching, a única pessoa que pode efetivamente te colocar no paraíso ou no inferno é o treinador ou o coach. Independente do que disserem a seu respeito, se bom, se mau, se culto, se limitado, se divertido ou monótono, haverá um momento em que você estará frente a frente com os alunos ou face a face com o coachee e é ali que tudo se constrói e é ali que tudo se estabelece. Com muita repetição e treinamento você até consegue fingir alguma cultura, alguma simpatia se não lhe forem naturais, mas não há como fingir ou como escamotear inteligência ou valores, eles extravasam através de nossos poros, mesmo porque a pressão de estar ministrando uma palestra ou um treinamento nos joga numa posição em que é necessário relaxar e mostrar-se, revelar um pouco de quem se é e do que se sente e pensa. Decorar citações de autores famosos ou frases de efeito não vai livrá-lo de encarar os alunos que efetivamente sabem o que fazem ali e estão ali para aprender e não para terem seus egos massageados nem - muito menos - para massagear o ego do palestrante, instrutor ou coach. Qualquer um que já tenha dado um treinamento sabe isso. O ser humano tem a fascinante capacidade de ser surpreendente!

Quando percebo um comportamento que peca pelo excesso de malícia inocente penso se não há, para além da necessidade óbvia de autopromoção ou afirmação do ego, um pouco de autosabotagem no processo. Se ao menos num nível inconsciente não está se operando uma forma de sabotar-se pelas mais diversas razões. Talvez até mesmo como um pedido de ajuda ao mundo exterior, por uma parte da pessoa que está se mostrando resistente a essa cristalização da vida a essa paralisação das águas, a esse endeusamento de si mesmo.

Conhece-te a ti mesmo
Muitas pessoas citam essa frase, escrita no pórtico de entrada do Oráculo de Apolo na cidade de Delfos na Grécia. Conhecer a si mesmo é observar as motivações internas que nos levam a praticar determinados atos ou a operar nosso sistema interno através de um ou outro valores e crenças e a nos perceber de determinada forma. O que me leva a agir de determinada maneira? Porque preciso tanto reforçar externamente uma qualidade minha? O que essa qualidade significa para mim?

É perfeitamente compreensivo que, quando nossos critérios valorativos internos não andam bem estruturados, busquemos os limites e contrapontos no mundo externo. Quando não nos aprovamos buscamos aprovação no outro, num discurso específico, numa metáfora, numa religião ou mais recentemente no google. Isso tudo é perfeitamente possível. Só cabe a cada um perceber-se e julgar se, mais do que possível, isso é realmente necessário ou se não seria melhor conseguir essa aprovação por crivos internos, como a consciência e a autopercepção.

Embaixo da frase "Gnoti Sáuton" (Conhece-te a ti mesmo) no oráculo de Delfos, há uma outra frase de igual importância embora menos citada que diz "Medén Âgan" (Nada além da justa medida), essa frase vai muito bem com uma certa passagem do evangelho de Lucas "Quando fordes convidados para as bodas, não tomeis o primeiro lugar, para que não suceda que, havendo entre os convidados uma pessoa mais considerada que vós, aquele que vos haja convidado venha a dizer-nos: dai o vosso lugar a este, e vos estejais constrangidos a ocupar, cheios de vergonha, o último lugar. Quando fordes convidados, ide colocar-vos no último lugar, a fim de que, quando aquele que vos convidou chegar, vis diga: meu amigo, venha mais para cima. Isso então será para vós um motivo de glória, diante de todos que estiverem convosco à mesa; porquanto todo aquele que se eleva será rebaixado e todo aquele que se abaixa será elevado (Lucas, cap. XIV, vv. 1 e 7 a 11.)

Em qualquer meio onde se pretenda ensinar é necessário que estejamos sempre à frente e, para isso, é necessário que estejamos sempre prontos a aprender, nunca a tomarmo-nos como obra última, perfeita e completa frente a um universo já plenamente esgotado diante de nossa própria grandeza. Perceber-se é um exercício necessário e constante de humildade, o mesmo exercício que nos possibilita evoluir e não sermos "definitivamente", mas tornamo-nos sim, diariamente, melhores que nós mesmos, nunca melhores que ninguém.

Renato Kress
Diretor do Instituto ATENA
Arte em Treinamento Especializado e Neurolinguística Aplicada

Criador dos cursos únicos e patenteados
A Jornada do Herói
A Arte da Guerra Oriental
Estratégia em Ação
Liderança Corporativa e PNL

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Eis o Homem

Quando olhamos para o Cristo Redentor, no alto de Santa Teresa, de braços abertos para toda a cidade do Rio de Janeiro, podemos pensar em Deus, podemos literal e espiritualmente "elevar nossos pensamentos", "direcionar nossas vibrações, orações e percepções para o alto", quando vemos as gigantescas estátuas de Buda, pensamos na indivisão entre espírito e matéria, no uno, indiferenciado, no cosmos. Pensamos na transcendência, no imanente, no eterno. Raramente pensamos no homem. 

Como se pensa o homem?
Quando pensamos no homem, no ser humano, logo nos inundam imagens de guerras, de chacinas, de violência, intolerância e agressividade. É o que somos condicionados para ver e crer, para compreender e para viver, o homem como o portador das piores desgraças, o homem como um vírus, depredando e aniquilando o planeta. Mas quem construiu o Cristo? Quem levantou as estátuas gigantes do Buda, as milhares de stupas e pagodas do rei Asoka pelos confins mais longínquos da Índia? Quem criou a arquitetura da Catedral de Chartres, a cidade de Petra, os jardins japoneses onde não se sabe onde a mão do homem acaba e começa a mão da natureza? O homem pode ser magnífico!


Como cientista político sou educado para observar os interesses por trás de cada ação humana. Quando observo os jornais deflagrando o medo, disseminando a intolerância, a prepotência, a arrogância, o sentimento reacionário de agressão e competitividade entre os homens, penso imediatamente que o horário televisivo é pago e que alguém ou algum sistema se beneficia em menosprezar, diaria e cotidianamente a figura do homem.

No célebre Mahabharata, a apopéia indu da construção do mundo pela ascenção da família dos Pândavas, está a frase: "E agora vou contar-lhe o segredo dos segredos: em todo este universo, não há nada maior do que o homem".

Potencial humano
Essa afirmação, pensada através de nossas lentes ocidentais, viciadas em compreender as relações internas e externas do homem como variações de um jogo de poder, seja através do ego seja através da hierarquia de poderes na sociedade, pode parecer completamente patológica, criada por um ego paranóico ou megalomaníaco a exemplo de alguns tiranos e políticos da história, convencidos de sua sublime importância pessoal. Mas não estamos falando aqui da grandeza de um ego pessoal ou de suas ambições, e sim da grandeza do potencial humano. Potencial que não mais pessoal do que universal, natural a todo ser humano.

Expectativas e jogos de frustração
Você está convencido, com exceção dos estados emocionais de exaltação, da sua própria grandeza e da grandeza do homem? você está em desacordo consigo mesmo, cheio de mal-estares, de culpas, de vergonha às vezes, não tem amor por si mesmo porque está decepcionado demais, não sendo o que os adultos esperavam de você quando você era criança?

Mídia e Medo
Não costumamos ter uma alta opinião do que é o homem, tampouco os outros têm acerca de nós. É triste termos de reconhecer que a nossa civilização, o nosso meio cultural, não faz nada para dar essa alta idéia do que é o homem. Podem nos fazer admirar os feitos dos atletas ou dos cientistas, podem dar o prêmio Nobel a uma santa como Madre Teresa que consagrou a vida ao próximo por amor a Cristo, mas os meios de comunicação nos mostram essa grandeza e essa dignidade intrínsecas a todo homem? E que tipo de homem temos sido levados a admirar? O empresário acumulador? O jogador mercenário? O político espertalhão?

Um produtor e apresentador de TV francês dos anos 1950, Arnaud Desjardins, numa sucessão de viagens ao Oriente em busca de respostas a várias questões fez a seguinte pergunta a um mestre em um Ashram: "Como é possível apreciar o valor do alimento que se dá a si mesmo ou que propõem os outros ao público?" a resposta a essa pergutna foi: "Dar uma alta opinião do que é o homem." Essa resposta deixou o apresentador mudo. Até então ele não tinha percebido em quão baixa conta tinha o restante da humanidade. Tinha uma alta idéia de místicos, mártires, santos, mas não da humanidade. Postas determinadas e muito especiais pessoas à parte, o resto da humanidade - para ele, até então - vivia no medo, na ignorância, na neurose, escrava de desejos e recusas. Desjardins mais tarde declarou: "Além de qualquer questão de vaidade, orgulho, pretensão, além das humilhações ou das lisonjas do ego, descobri um sentimento de dignidade e responsabilidade." Os conceitos de "Areté" e "Timé", as palavras que dão título a esse blog, significam "Superioridade" e "Honra", respectivamente, mas poderiam muito bem terem sido traduzidas como "Dignidade" e "Responsabilidade".

A linha da dignidade
Quando nos propomos a sermos o melhor de nós mesmos compreendemos que existem coisas que simplesmente não faremos. Entre se alistar no exército para travar lutas e matar em nome de uma causa que não me convence, posso escolher fugir, ou em último caso não fazer nada, ou posso simplesmente decidir que nada vale o assassínio de outro ser humano. Certas atitudes estão abaixo da minha dignidade. Compreender a grandeza de sermos humanos engloba, também, compreender e respeitar os limites inerentes a essa condição, principalmente os que nos impomos, aqueles que constroem nosso caráter.

Toda nossa sociedade, odiernamente, parece construída em prol do desmantelamento do caráter humano. E isso serve, claramente, a um interesse. Porque muito dinheiro e muitos recursos são dispendidos para isso. Para evitar que certas perguntas sejam feitas.

Perguntas e perspectivas
Existem perguntas que amedrontam aos que vivem de amedrontar diariamente, televisivamente, midiaticamente. Por exemplo: O que faríamos se soubéssemos o que somos capazes de fazer? Que seres humanos seríamos e que atitudes consideraríamos "abaixo da nossa dignidade"? Engolir a seco que todos querem competir comigo, que não se pode confiar em ninguém e que o mundo é dos mais "espertos"? Talvez essas idéias fossem risíveis.

Um restaurante de outro planeta, em Botafogo
Outro dia fui a um restaurante de comida natural em Botafogo. Uma amiga produtora de cinema me apresentou o espaço. Completamente imerso num terreno pessoal, parecíamos estar em uma casa da Ilha Grande. O interessante mesmo do espaço, para além da comida deliciosa e do suco de laranja com gengibre, era a forma de pagar. No centro do restaurante, à vista de todos os clientes, havia uma caixa de madeira, aberta. Dentro dessa caixa haviam notas de cem, cinquenta, vinte, até dois reais. À hora de pagar a conta pedi que fechassem para mim e o gerente me trouxe um papel com o total e saiu. minha amiga me levou até aquela caixinha, no centro do restaurante e paguei com uma nota de cinquenta, tirando o troco das notas dentro da caixa. A cena toda me pareceu completamente surreal, e foi quando eu percebi também, que não tenho uma boa imagem do homem. Que paguei e peguei o troco certo e também me preocupei se todos fariam o mesmo depois de mim, ou tinham feito o mesmo antes. Meus pensamentos me constrangeram mais que os olhares ao redor e comecei a repensar a imagem que tenho do ser humano. Perguntei ao gerente se aquela forma de pagamento não havia dado problema. A resposta dele foi: "Menos que com Visa", e pediu licença para atender uma mesa e saiu rindo. Ele deve estar acostumado com o estranhamento.

E você? Como tem pensado sobre o homem? Que tipo de imagem têm acerca dos seres humanos? Como essa imagem modifica e condiciona seu comportamento, sua vida, sua história? Como seria enxergar a dignidade e a seriedade de cada um?

Texto: Renato Kress
Diretor do Instituto ATENA

Crer no Homem

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Estratégia Social XXXIX

Autoridade Nata

Baltasár Gracián: É de uma força superior, secreta. Não deve emanar de artificialismo enfadonho, mas de um domínio natural. Todos se submetem a ela sem saber por quê, reconhecendo o secreto vigor da autoridade nata. Tais pessoas têm um caráter altivo: reis por mérito, leões por direito natural. Cativam o respeito, o coração e até a mente dos outros. quando abençoados com outros dons, nascem para ser excelentes políticos. São capazes de realizar mais com uma insinuação do que outros com prolixidade.

ATENA: Alguns indivíduos possuem tal força de caráter e tal expressividade na linguagem que comunicam naturalmente sua dominância aos demais. Isso independe de tratarmos de um Ghandi ou de um Mobutu. Cabe aos de valores humanitários e de caráter íntegro exercitarem-se na arte de expressar seus valores, acreditando na grandeza do ser humano e nas possibilidades de ação e criação de que somos imbuídos. A autoridade é um exercício interno e externo, um exercício de integração da personalidade com a atitude, tal qual a liderança.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Estratégia Social XXXVIII

Nunca exagerar


Baltasar Gracián: Não é sensato usar superlativos. Ofendem a verdade e desabonam o seu discernimento. Ao exagerar, desperdiçamos nossos elogios e mostramos limitação de conhecimento e gosto. O louver desperta a curiosidade, atiça o desejo e, mais tarde, quando se percebe que os bens foram superestimados, como acontece muitas vezes, a esperança traída vinga-se menosprezando o elogiado e aquele que elogiou. Os cautos têm comedimento, preferindo pecar pouco a muito. Raras são as eminências, portanto tempere sua apreciação. A ênfase é uma forma de mentir. Pode arruinar nossa reputação de bom gosto e, ainda pior, de sabedoria.

ATENA: O uso excessivo de superlativos termina por banalizar o fenomenal e por superestimar o medíocre. A comunicação se perde num nivelamento idêntico de todos os assuntos, pessoas e experiências. Nem tudo é incrivelmente fantástico ou pessimamente horrendo e não é necessário ter uma opinião bombástica sobe um assunto de menor importância. O pior que pode ocorrer nos exageros é perdermos a sutil e poderosa capacidade de surpreender.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Simetria e energia



Pense num católico rezando com as mãos espalmadas, num judeu com os dedos entrecruzados... num monge indiano meditando, agora num muçulmano rezando em direção a Meca... notou uma coisa? Simetria! Todos eles estão em posição simétrica, se você passar uma linha vertical dividindo seus corpos ao meio as duas metades serão sempre idênticas e simultaneamente opostas. Rezar, meditar, é buscar sempre o centro. Observe isso e procure sempre ser o centro dentro de você, ou estar em sintonia com esse centro.


Energia
A natureza da energia é mudança, ela flui, fluiu e vai fluir eternamente, nossa única forma de adquirir potência é justamente garantir que essa energia esteja circulando através do nosso centro, dos nossos critérios, do nosso equilíbrio interno. Caso contrário nos sentiremos sempre "fora do eixo".


Flutuação e centro
Você tem diferentes humores? Então você flutuações energéticas! Ótimo, isso é sinal de que você está vivo e que opera mudanças ao longo da sua vida. Só o universal e estagnado são os realmente patológicos e problemáticos. O que importa é conseguir controlar o fluxo dessas energias inevitáveis porque necessárias à vida. Como dizia Heráclito de Éfeso: "Panta rei", "tudo flui". A natureza da vida é mudança, mas o fato de que mudanças são inevitáveis não é suficiente para concluirmos rasteiramente que qualquer mudança é benéfica. Muitas mudanças podem ser péssimas e cabe a nós operarmos, nesse momento, as novas mudanças necessárias ao reestabelecimento de um equilíbrio chamado "equilíbrio dinâmico" que é o equilíbrio natural dos processos saudáveis da vida.

Equilíbrio dinâmico
Experimente andar devagar. Experimente andar absurdamente devagar, mais lento do que em uma câmera em "slow motion". Você se sentirá desequilibrado entre os passos. Sequer percebemos que qualquer movimento, mesmo o simples ato cotidiano de caminhar, requer um "desequilíbrio" inicial para que seja efetuado. É o mesmo que tentar levantar da cadeira, em que provavelmente você está agora, sem tirar suas costas da cadeira. Só usando os músculos do quadríceps para levantar, sem o auxílio de um "desequilíbrio" inicial da lombar e do abdômen, é impossível. Tente e divirta-se à vontade.

O equilíbrio dinâmico opõe-se à idéia de equilíbrio estático, de estabilidade, rigidez e fixidez. Ele é uma característica inevitável, porque indispensável à vida. Estamos constamente tendo nossos corpos refeitos por células que morrem e dão lugar a novas células que nascem para morrerem em alguns dias. 



Filtros
Já que o fluxo de energia é inevitável, como a mudança e o desequuilíbrio, mesmo que momentâneo, o que nos interessa é saber administrar bem essa troca inevitável de energias, de vida, esse fluxo de que somos parte. Só a estruturação de um bom filtro, só um real conhecer-se a si mesmo, é capaz de orientar o fluxo energético de que somos compostos em direção a nossas metas, alicerçadas em nossos valores e crenças.


Texto: Renato Kress