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segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Estratégia Social XXXIII

Avaliar a sorte

Baltasar Gracián: Para poder agir e para se empenhar. É bobagem alguém de quarenta anos pedir saúde a Hipócrates e bobagem ainda maior pedir prudência a Sêneca. Reger a sorte é uma arte, seja esperando - pois ela às vezes não se apressa -, seja aproveitando-se dela quando é oportuna, embora nunca vá entender totalmente o seu proceder bizarro. Se a sorte o tem favorecido, prossiga com ousadia, uma vez que ela adora os ousados e, como uma mulher deslumbrante, os jovens. Se é um azarado, abstenha-se de agir. Retire-se e evite de falhar duas vezes. Se a dominou, você deu um grande passo à frente.

ATENA: Antes de qualquer empreitada há que se observar o quadro geral das questões periféricas envolvidas. Observe as circunstâncias ao redor e dentro. Aos otimistas é tão comum tomar decisões ou traçar metas observando apenas uma parte dos fatores, seja externa (bom momento no mercado, "bolhas" e "booms", circunstâncias estruturais facilitadoras, promoções etc) ou interna (boa saúde, disposição, entusiasmo), quanto aos pessimistas. A diferença está, sempre, no foco e o problema, sempre, no excesso. O otimista inveterado se joga do penhasco sem ver as pedras no fundo das águas, o pessimista crônico pode não sair do lugar por nada. Avaliar a sorte é observar a vida de forma sistêmica, integrada. Muito mais um exercício complexo do que uma simples idéia.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Estratégia Social XXXII

Considerar as questões com cuidado

Baltasar Gracián: E refletir mais sobre aquelas que mais importam. Os tolos se perdem por não pensar. Nunca enxergam nem a metade das coisas, e, por não perceberem nem suas vantagens nem seu prejuízo, empregam mal o seu esforço. Alguns ponderam às avessas, prestando muita atenção ao que importa pouco, e pouca atenção ao que importa muito. Muitos nunca perdem a cabeça por não terem cabeça para perder. Há certas coisas que devemos considerar com todo cuidado e manter nas profundezas da mente. Os sábios analisam tudo: mergulham nos temas profundos ou duvidosos, às vezes cogitando que há mais do que lhes ocorre. Fazem com que a reflexão avance além da percepção.

ATENA: Estar à frente dos fatos é inteirar-se das forças aparentes e ocultas que operam nos processos em que estes fatos se desencadeiam. Surpreende-se quem observa os fatos, compreende e se prepara quem observa os processos que dão luz aos fatos. Analisar as forças é compreender os agentes dos processos, suas motivações, seus interesses e metas. Essas considerações atualmente podem ser perdidas em meio a uma enxurrada indiscriminada de fatos e notícias aparemente desconexos e estrategicamente (des)orientados para que não percebamos os padrões, grupos e interesses subjacentes.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Estratégia Social XXV

Integridade e firmeza

Baltasar Grácian: Esteja sempre do lado da razão, e com tal firmeza de propósito que nem a paixão comum, nem a tirania o desviem dela. Mas onde estará essa Fênix de eqüidade? Poucos cultivam a integridade. Muitos a louvam, mas poucos a visitam. Alguns a seguem até que a situação se torne perigosa. Em perigo, os falsos a renegam e os políticos a simulam. Ela não teme contrariar a amizade, o poder e mesmo o seu próprio bem, e é nessa hora que é repudiada. Os astutos elaboram sofismos sutis e falam de louváveis motivos superiores ou de razões de Estado. Mas o homem realmente leal considera dissimulação uma espécie de traição e preza mais ser firme do que o ser sagaz e se encontra sempre do lado da verdade. Se diverge dos outros, não é devido à sua inconstância, mas porque os outros abandonaram a verdade.

ATENA: Nossa sociedade vive refém do medo. Medo de não sermos suficientemente capazes, líderes, eficazes, eficientes, pró-ativos, bem arrumados, antenados com as tendências da moda, da tecnologia, das notícias. Nesse tipo de sociedade somente um homem íntegro e maduro pode sobreviver sem fragmentar sua percepção do mundo, de si mesmo e dos outros. O sistema sobo  qual vivemos exige que sejamos todos imaturos, emocionalmente, psiquicamente, afetivamente... afinal, só um homem muito imaturo enquanto indivíduo acredita que possa sempre estar carente de algo para ser feliz, pleno, completo, e só um homem que se encontre eternamente carente consegue consumir eternamente pequenos remédios para essa carência difusa, dispersa sob a qual vivemos. O homem íntegro é aquele que não se rende senão a si mesmo, e cujos valores se originam de dentro, uma jornada de que só os verdadeiramente corajosos são capazes.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Trabalho e realização pessoal - uma visão estratégica

Você está satisfeito? Melhor: Como você se sentiria se estivesse? Satisfeito ou incomodado? Alcançar a satisfação é entrar no que o discurso do mercado chama de “zona de conforto”. Essa tal “zona de conforto” opõe-se, no discurso pseudo-administrês/economês, à uma outra tal “zona de ação”, onde (em teoria) tudo é criado, pensado, produzido.

Nessa lógica perversa, sentir-se satisfeito, feliz, realizado, curtir o mérito ou o êxito pelos seus esforços é passível de culpa, penalização e ridícularização.

Ser insatisfeito é pertencer

A insatisfação é um estado de carência, de falta de alguma coisa, cujo suprimento se exige. Geralmente é uma expressão do que o ser humano precisa absolutamente para conservar e desenvolver a sua vida.

Existem necessidades primárias, fisiológicas, como a alimentação, a reprodução, a excreção, o sono e as necessidades secundárias, adquiridas ao longo da vida como necessidade de conforto, pertencimento social e afeto. Alguns chamam de necessidades instintivas e espirituais, outras de primitivas e intelectuais. A lógica é a mesma.

Saciedade, satisfação ou felicidade?

A saciedade é o estado de quem se saciou, é a fartura, é a satisfação plena de um apetite qualquer que nos deixa a sensação de estarmos repletos daquela questão, daquele ponto, daquele objeto. Podemos sentir isso claramente no quesito apetite. Não importa o quanto propagandas, diretas ou indiretas possam falar, mostrar ou musicalizar sobre determinado alimento, se estamos realmente satisfeitos, aquilo pode vir mesmo a nos causar nojo, asco, irritação.

A satisfação já opera num grau mais elevado. Está ligada ao contentamento, à alegria, ao deleite, ao aprazimento. Geralmente ocorre como uma sensação de reconhecimento ou recompensa por algum esforço. É uma espécie de retribuição bem coordenada por alguma espécie de mérito.

E a tal felicidade? A felicidade, símbolo máximo dos longos e musicalizados comerciais de banco e companhias de seguro, é um estado de ventura, de grande e inegável contentamento com algum bom êxito ou sucesso ou mesmo com a boa sorte em algum aspecto da vida, cujo sentimento de realização opera em todos os campos e se alastra incluindo e influenciando nossa vida em outras áreas alheias à área em que nos sentimos pela primeira vez “felicitados”.

Se o homem do início do século XX era “um cadáver adiado que procria” (Machado de Assis), o homem contemporâneo é uma felicidade adiada que produz.

A noção de saúde

Em 1948 a Organização Mundial da Saúde redefiniu o conceito de “saúde” para: “estado de completo bem-estar físico, mental e social, não meramente a ausência de doença ou enfermidade.”. Saía de cena o modelo biomédico de uma saúde exclusivamente orgânica, ligada à sobrevivência do indivíduo e entrava em vigor um modelo holístico, em que a – muito falada e pouco definida - “qualidade de vida” se tornava um valor forte para a o indivíduo.

Isso não se deu de forma arbitrária e sem nenhuma ordem crítica ou científica. Os estudos, principalmente nas áreas da psicologia e do comportamento, enfatizavam as relações entre a mente e o corpo. Todo o quadro científico da época era muito propício a essa mudança no conceito de saúde:

. Os estudos sobre “estresse” operados nos ex-combatentes da Segunda Guerra Mundial.
. Os estudos sobre integração e reintegração social
. Os estudos sobre capacidade afetiva de enfrentamento da realidade, seja dentro ou fora do contexto de guerra. (existiam dificuldades dos dois lados).
. Os estudos sobre o “sentido de coerência” interna do sujeito, na direção da narrativa que coordena sua vida. (Antonovsky)
. Os estudos sobre a “sucetibilidade generalizada” (o que chamaríamos popularmente de “cabeça-fraca”). (Marmot, Shipley e Rose)
. Os estudos na área do comportamento organizacional, efetuados por Elton Mayo, Kurt Lewin e Abraham Maslow.

Além da Pirâmide, os estudos de Maslow

Abraham Maslow, que, ao contrário do que ensinam a maior parte dos livros e cursos que se utilizam de forma superficial de sua teoria, nunca criou nenhuma pirâmide hierárquica com os termos que separou e estudou em vida, dizia que a auto-realização – o sentimento de crescer e desenvolver-se como indivíduo – era em si se não o maior, um dos maiores motivadores para o ser humano.


Da mesma forma a contínua tentativa de aumentar o controle sobre o comportamento do indivíduo gera (no ambiente do trabalho, por exemplo) uma rigidez gerencial excessiva que tende fortemente a levar o funcionário à apatia e desinteresse. O ideal, caso desejássemos uma atividade que efetivamente engajasse e motivasse o funcionário, seria operar com algum grau de flexibilidade.

A solução perversa

Com a prova científica de que o controle crescente gera boicote direto ou indireto, a solução do discurso do trabalho – viciado em poder e controle – foi “introjetar” o controle, colocar ele dentro da cabeça do trabalhador, criar uma espécie de fortalecimento de um “superego*” gerencial e cultural do “empreendedor”, do capaz, do potente, do líder, do vencedor. Com o controle operando “a partir de dentro”, com a responsabilidade deixada a cargo do trabalhador, teoricamente, ele poderia sentir-se mais livre para desenvolver seu potencial dentro do que lhe é pedido, das tarefas que tem de executar. Mas o que ocorre efetivamente é que muitas vezes ele perde o sentido do trabalho, se sente cada vez mais desligado do significado do que faz e se torna mais e mais incerto, inseguro e tenso em relação a si e às suas capacidades, afinal, pedir conselho, assumir qualquer dúvida ou insegurança é provar-se indigno do cargo que ocupa, ineficiente, inepto, incapaz, seguidor, inferior. Essa lógica perversa aniquila a saúde mental e física do trabalhador.

Mais do que qualquer processo externo de coerção gerencial, a autocrítica e a autocensura, aniquilam a auto-estima e geram as mais diversas patologias mentais e físicas. Há um provérbio ruandês que diz: “Você pode se distanciar de quem está correndo atrás de você, mas não do que está correndo dentro de você.”

Nenhuma criatividade

O mecanismo é simples e até mesmo antigo. Na Grécia Antiga tínhamos a classe dominante dos “Aristói”, dos aristocratas. “Aristói” é uma palavra grega que vem de “Areté”, que significa “ser o melhor”, “qualidade dos melhores” ou “superioridade”. Daí o termo “Aristocracia” ou “governo dos melhores”, “dos superiores”, “dos líderes naturais” etc. Parece familiar?

Hoje em dia o discurso do trabalho procura unir, de forma perversa, o conceito do Aristói grego, do “melhor”, do “líder”, do “vencedor” ao conceito de mérito. Até aí tudo bem: se um determinado indivíduo efetivamente é mais capaz que seus concorrentes em dado momento, que lhe seja permitido, depois, viver seu mérito e gozar do fruto de seus esforços. Nada mais justo, aliás. O problema real é que há muitos seguidores para um líder, muitos derrotados para um vitorioso, e é nesse ponto que se opera a perversidade da instrumentalização da vergonha dos demais, dos “não vencedores”, dos “não líderes”, dos “não pró-ativos” como forma de dominação introjetada, de dentro para fora.

As exigências absurdas desse super-ego fabricado, catalisador do trabalho e castrador das expectativas de retorno e satisfação é que geram uma insatisfação crescente.

Prisão emocional

Os valores do super-ego do trabalho contemporâneo: combatividade, agressividade, assertividade, competitividade, eficiência, eficácia, controle emocional, pró-atividade e liderança tendem a gerar uma sociedade emocional e psiquicamente imatura, viciada em projetar sua satisfação no futuro, culpabilizada pela satisfação gerada por seus sucessos e dependente das ofertas de pertencimento e sentido de vida disponíveis no Mercado.

Se eu pretendo que minha empresa vá ser estrategicamente dirigida e que prime pela inovação e pela criatividade (a única forma sustentável de ser competitivo), não posso ter funcionários com esse perfil. Não posso admitir novos funcionários com esse perfil e não posso permitir que os antigos permaneçam assim. A única forma para conseguir ir além dessas limitações é treinar meu funcionário para que aja e pense e forma diferente desse padrão e encorajá-lo a se interessar efetivamente pelo que é criado ou oferecido na minha empresa, tendo sempre a noção de que ninguém se interessa a troco de nada e de que alguma troca deve ocorrer dentro da escala de valores, do que é importante, para o meu funcionário. Deve haver alguma espécie de recompensa sem culpa embutida.

Liberdade

O primeiro passo para sair dessa prisão psíquica é olhar para trás e estranhar. Estranhar nossas decisões e os critérios que levaram a elas, estranhar nossos incômodos e as forças que agem por trás deles, estranhar nossa insatisfação e perguntar: Eu estaria realizado se estivesse satisfeito? Ou eu estaria tenso, irritadiço, inseguro, na “zona de conforto”?

Mais importante de tudo é questionar a si mesmo: Meus estudos, minhas horas de dedicação e esforço, minhas noites em claro, foram para que eu vivesse essa tensão eterna entre estar insatisfeito por não ter cumprido com alguma meta ou, por outro lado, estar inseguro, irritadiço e tenso por cumprir determinada meta, pensando que o prazer de se sentir satisfeito é algo pelo qual eu deva sentir vergonha?

No fundo o que mais conta é que a escolha sobre a sua vida é, sempre, sua.

Renato Kress,
Diretor do Instituto Atena

Sobre desenvolvimento do conceito de “eu”, da personalidade e criação de um estado pessoal de recursos para a batalha do dia-a-dia:
A Jornada do Herói

Sobre administração e gestão estratégica:
Estratégia em Ação – módulo básico

Sobre alternativas à lógica perversa do trabalho, estratégias e táticas inovadoras:
A Arte da Guerra Oriental

Sobre Liderança inteligente:
Liderança corporativa e PNL



Superego: Sistema que representa motivos morais (família, comunidade, trabalho). Princípio de moralidade que cerceia e limita nossas condutas. As funções do superego são: estabelecer um sistema de valores e integração do ego-ideal (deveres, exigências, ordenamentos e proibições), direcionar os comportamentos e atitudes por este sistema de valor e, principalmente, excluir atitudes e modos de comportamento que não correspondem ao ideal imaginado através da autocrítica e da autocensura.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Equilíbrio Emocional e Gestão

“Vivemos em uma época perigosa. O homem domina a natureza, antes que tenha aprendido a dominar a si mesmo.”Albert Schweitzer – Francês, Teólogo, médico, escritor, prêmio Nobel da Paz.

Vivemos num universo do trabalho que se caracteriza pela multidisciplinaridade e, principalmente no que tange ao universo do trabalho, o melhor recurso, aquele sem o qual nenhuma empresa é capaz de se erguer ou sustentar por longo tempo, é o recurso que cria, que sente, que observa e induz, que é capaz de surpreender e se desenvolver sempre, o recurso humano. Então como trabalhar esse material, como desenvolvê-lo para que esteja sempre se superando quando a única certeza que podemos ter sobre as pessoas é a de que elas são totalmente diferentes?

João quer um aumento de salário, Pedro férias prolongadas, Marta gostaria de uma sala maior, Sônia uma placa com seu nome, Rubens gostaria que seu chefe olhasse nos seus olhos, lhe apertasse a mão e dissesse com franqueza “bom trabalho”. Seres humanos são diferentes, suas perspectivas, desejos e expectativas também.

Compreender a personalidade dos funcionários ajuda os administradores e conselheiros das organizações a aproveitar as diferenças individuais para facilitar o trabalho em equipe, para favorecer o desenvolvimento das competências e melhorar o desempenho.

Trabalhando a psique no ambiente de trabalho

O ambiente de trabalho não deve ser apenas o ambiente em que se materializa o produto que se espera comercializar, mas principalmente o espaço onde o produtor se torna cada vez mais apto e interessado em produzir constantemente novas idéias, projetos e concepções dentro do que se espera dele.

O ambiente de trabalho é ambiente de aprendizado, principalmente para a mente. Grande parte da carga emocional que nos impulsiona e nos desafia a aprender se apresenta nesse ambiente. Não seria interessante utilizá-lo conscientemente para esse fim?

A estabilidade emocional do funcionário

Segundo Rolland in L’évaluation de La personnalité: le modèle en cinq facteurs (2004), o fator “estabilidade emocional” se relaciona com um sistema de percepção da ameaça, real ou simbólica, e com a reatividade a essa ameaça. Essa reação a ameaça, a instabilidade que se cria para reagir à real ou imaginária ameaça, é composta pelas dimensões a seguir:

  • Ansiedade
  • Cólera
  • Depressão
  • Timidez social
  • Impulsividade
  • Vulnerabilidade ao estresse

As pessoas que apresentam maior estabilidade emocional apresentam geralmente uma atitude calma e ponderada. Na linguagem corrente, diz-se que essas pessoas sabem guardar seu “sangue-frio” nas situações estressantes. No limite, elas podem parecer despreocupadas e indiferentes diante dos acontecimentos.

Certos ofícios ou profissões exigem um nível particularmente elevado de estabilidade emocional; é o caso dos bombeiros, dos policiais, do pessoal que trabalha com emergências em hospitais, dos soldados, professores da rede pública que trabalham em comunidades dominadas pela criminalidade etc.

As pessoas em que esse traço está pouco presente têm, pelo contrário, tendência a ter em vista o pior, a se preocupar com tudo e por uma ninharia, a ter uma imagem pouco valorizada delas mesmas e tendem a experimentar, com freqüência, afetos negativos tais como o medo, a vergonha e a tristeza. Da mesma forma, essas pessoas seriam mais propensas a vivenciar a angústia psicológica.

O convite à aventura

“A viagem da descoberta consiste não em achar novas paisagens, mas em ver com novos olhos.” – Marcel Proust. Escritor, autor de Em busca do tempo perdido.

A abertura para a experiência corresponde, de modo geral, ao interesse pela novidade. Embora este fator seja, muitas vezes, associado à inteligência, os dois termos não são sinônimos. A abertura para a experiência pode corresponder às fantasias, à estética, aos sentimentos, às ações e às idéias.

As pessoas de espírito muito aberto têm vários campos de interesse e procuram experiências novas. Elas preferem, de longe, a mudança à rotina. Muitas vezes podem ser percebidas como excêntricas ou rebeldes.

Indivíduos pouco abertos à experiência, pelo contrário, são atraídos pelas atividades concretas e práticas. Dada sua preferência marcante pela estabilidade, essas pessoas podem parecer rígidas.

Amabilidade e competição
A amabilidade é uma dimensão que serve para regular a tonalidade das relações e das trocas com o outro. As dimensões da amabilidade são:

  • Confiança no outro
  • Retidão
  • Altruísmo
  • Complacência
  • Modéstia
  • Sensibilidade aos outros

As pessoas caracterizadas por um alto nível de amabilidade mostram-se sensíveis às necessidades e às preocupações dos outros, mostram-se cooperativas e conciliadoras. Elas também são percebidas como pessoas doces e amigáveis. No limite, essas pessoas podem ter dificuldade para se defender no meio de um grupo.

Quanto às pessoas pouco agradáveis, muitas vezes podem expressar-se de forma egocêntrica e pouco empática. Elas se caracterizam, igualmente, por algum grau de frieza e agressividade. Em geral elas privilegiam um approach competitivo nos seus relacionamentos.

O caráter consciencioso

Este último caráter corresponde à assiduidade, à organização e à perseverança nas condutas orientadas para um objetivo. Este fator seria constituído pelas seguintes dimensões:

  • Competência
  • Organização
  • Sentido do dever
  • Procura do êxito
  • Autodisciplina
  • Deliberação

As pessoas muito conscienciosas atribuem uma importância muito grande ao êxito. Elas valorizam, notadamente, a pontualidade, os esforços e a disciplina. Quando esse fator é muito marcado, a pessoa pode ser percebida como muito aferrada ao trabalho, cheia de melindres e rígida.

Pelo contrário, um indivíduo muito pouco consciencioso dificilmente suportará as obrigações impostas pelo trabalho e tenderá a deixar para mais tarde as tarefas mais difíceis. Esses indivíduos serão percebidos pelas pessoas conscienciosas como tendo dificuldades para respeitar seus compromissos e como pessoas pouco confiáveis.

Identificar cada um desses padrões – em nós mesmos e nos nossos funcionários, e aprender em quais pontos podemos nos desenvolver para formarmos não apenas a concepção melhor de quem somos perante nós mesmos e nossas vidas, mas diante dos desafios do trabalho no mundo atual – é tarefa primordial de cada um de nós e um desafio salutar, enobrecedor e capaz de equilibrar, de forma dinâmica e intensa, nossas emoções, pensamentos e ações.

Renato Kress,
Diretor do Instituto Atena

Para equilíbrio emocional conheça:
A Jornada do Herói

Para gestão inteligente de recursos humanos conheça:
Estratégia em Ação (Módulo básico)
Liderança Corporativa e PNL

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

O Processo de Tomada de Decisão

Uma das funções mais importantes da administração é a tomada de decisão. Quando se toma uma decisão a questão da objetividade claramente se coloca. Como podemos garantir a objetividade de uma decisão? No caso em que essa decisão concerne ao trabalho de uma equipe, ou se refletirá nas pessoas, de que maneira se consegue compreender as diferenças de opinião, e como levá-las em conta no momento da tomada de decisão?

Para compreender o mecanismo de tomada de decisão vamos separar o tema central em outros quatro: problema da objetividade, a origem do conhecimento, a percepção e a inteligência (cognição).

Da consciência ao conhecimento

O conceito de percepção está, há muito tempo, vinculado ao problema do conhecimento. Desde a antiguidade, a começar por Platão (427-347 a.C.) e Aristóteles (384-327 a.C.), os filósofos se interrogam sobre algo que constitui uma característica essencial da espécie humana: a busca por conhecimento.

Para Aristóteles os sentidos fornecem os elementos necessários ao conhecimento e a razão os organiza, para torná-los inteligíveis. Segundo essa perspectiva existe o mundo, o dado da experiência concreta, e o julgamento diferente dos seres humanos é a fonte dos erros e mal-entendidos.

Objetividade e subjetividade

Quando se olha atentamente a questão da objetividade e da subjetividade percebe-se que o grande problema reside no fato de se ligar a objetividade à idéia de neutralidade, imparcialidade, verdade única e inteira e, logicamente, compreender-se a subjetividade como arbitrária, desigual e imaginativa. Acabamos transformando a questão em um problema moral, o que não é um passo muito inteligente.

Sabemos que na vida real, no dia a dia, nem tudo é "preto no branco" e mesmo a tal "objetividade imparcial" precisa de uma análise que abarque todas as possíveis variáveis envolvidas no processo decisório e isso é impossível. A objetividade prática é impossível. O que não quer dizer que não seja um bom ideal a ser buscado.

Aprendemos, nos negócios, que toda escolha exige abrir mão de algo em prol de outra coisa – que por algum ou alguns motivos específicos seja mais valioso para nós do que o que estamos abrindo mão - , mas parece que muitas vezes aprendemos isso só para depois enganarmos a nós mesmos crendo que seguimos fazendo várias escolhas lógicas, objetivas e imparciais. Caso essas escolhas existissem não diria que "todos", mas a maioria das pessoas fariam as mesmas escolhas e teriam resultados semelhantes. Sabemos que o mundo não é "preto no branco" assim.

No mundo real temos dois pontos importantes a considerar:

1. Ceticismo radical: Não podemos estar radical e absolutamente certos de coisa alguma (o imprevisto é sempre um fator a se considerar).

2. Senso comum: Podemos estar certos de alguma coisa mesmo que essa certeza não seja absoluta.

A partir dessa consciência é que podemos nos dedicar à tomada de decisão. Afinal, admitir que nossa decisão pode não ser inexoravelmente única e óbvia é abrir caminho para operarmos com novas possibilidades e estarmos mais atentos às mudanças nos quadros estratégicos e nas circunstâncias que envolvem a tomada de decisão. Optar por crer numa objetividade pura e simples é ater-se a uma possibilidade só, empobrecer nossa visão da realidade e buscar um ideal inalcançável. Sem considerar que em geral encurralamos nossas opções.

Adeus às certezas

"O intelecto humano não é luz pura, pois recebe influência da vontade e dos afetos, donde se poder gerar a ciência que se quer. Pois o homem se inclina a ter por verdade o que prefere. Rejeita as dificuldades levado pela impaciência da investigação, a sobriedade, porque sofreia a esperança; os princípios supremos da natureza em favor da superstição; a luz da experiência em favor da arrogância e do orgulho, evitando parecer se ocupar de coisas vis e efêmeras, paradoxos, por respeito à opinião do vulgo. Enfim, inúmeras são as formas pelas quais o sentimento, quase sempre imperceptivelmente se insinua e afeta o intelecto. (...) do mesmo modo, se antes da descoberta do fio da seda alguém houvesse falado: há uma espécie de fio para a confecção de vestes e alfaias que supera de longe em delicadeza e resistência e, ainda em esplendor e suavidade o linho e a lã, os homens logo se poriam a pensar em alguma planta chinesa, ou no pêlo muito delicado de algum animal ou na pluma ou penugem das aves, mas ninguém haveria de imaginar o tecido de um pequeno verme tão abundante e que se renova todos os anos. Se alguém se referisse ao verme teria sido objeto de zombaria, como alguém que sonhasse com um novo tipo de teia de aranha." – Francis Bacon

Segundo Laing (1966) a percepção é fruto de três fatores:

1. Do próprio estímulo
2. Da interpretação do estímulo graças às atividades cognitivas
3. Dos fenômenos psíquicos associados a esse estímulo, como a projeção

Vamos explicar como esses fatores constroem e influenciam a noção de "certeza", necessária para a tomada de decisões. A ilusão da certeza é explicada não apenas no plano psicológico mas também no plano biológico. A consciência gerada pela percepção gera fatalmente o sentimento de objetividade, os três fatores acima explicam esta "ilusão".

Em primeiro lugar nenhum de nós tem consciência de todas as atividades do sistema nervoso e mesmo que tivéssemos não teríamos como contabilizar os dados sensoriais que estimulam os receptores nem do tratamento a que o cérebro submete tais dados.

Em segundo lugar quando percebemos alguma coisa tampouco estamos conscientes da informação já memorizada que se ajunta aos dados sensoriais para completá-los, corrigi-los e lhes dar um sentido. Em outras palavras: não estamos conscientes dos sistemas de representação que são utilizados para construir as imagens presentes em nossas mentes.

Em terceiro lugar não temos consciência dos mecanismos de percepção subliminar que incorporam dados sensoriais à representação mental da situação.

Por que estudar a percepção?

Tomada de decisão

O estudo da percepção leva à compreensão dos fenômenos da consciência, a qual constitui ao mesmo tempo o domínio das crenças e das emoções e, conseqüentemente, da racionalidade das condutas e da afetividade. Todos esses fatores influenciam a tomada de decisões e suas conseqüências. Compreender melhor a percepção possibilita que possamos engendrar de maneira mais estratégica nossas tomadas de decisão e nossas posturas frente a situações novas.

Motivação

O estudo da percepção desvenda as atividades da inteligência e coloca em relevo a riqueza da subjetividade do indivíduo; dessa forma revela as necessidades e os campos de interesse da pessoa e valoriza a lógica de seus comportamentos no contexto em que ela se encontra, facilitando o processo consciente e inteligente de motivação do sujeito.

Os seguintes treinamentos aprofundam noções e técnicas práticas sobre percepção e tomada de decisões:

Arte da Guerra Oriental

Estratégia em Ação – Módulo básico

Liderança Corporativa e PNL

Renato Kress,
Diretor do Instituto Atena
Arte em Treinamento Especializado e Neurolingüística Aplicada

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Estratégia Social XVII

Regra para se ter sorte

Baltasar Grácian: A sorte tem suas regras, e para os sábios ela não é tão cega. A sorte conta com a ajuda do esforço. Alguns se contentam em se colocar confiantes à porta da deusa, esperando que ela aja. Outros são mais sensatos, e vão além com audácia cautelosa. Amparada pela coragem e pela virtude, a audácia espreita a sorte e a adula com determinação. Quem pensar direito, porém, terá eficazmente um único plano de ação: virtude e prudência; pois a sorte e o azar se acham na prudência ou na precipitação.

ATENA: A regra para se ter sorte baseia-se num único princípio, natural à toda vida humana, de que o estágio em que vivemos - afetivo, profissional, pessoal, familiar - é uma preparação para desafios maiores num estagio futuro. O bem responder a um desafio é abrir caminho a outros maiores, a maiores missões a maiores méritos. Dessa forma a única regra possível para mantermos a sorte ao nosso lado é a preparação constante, o afiar eterno da lâmina durante as batalhas. A prontidão - habilidade de estar alerta e concentrado no foco do que se almeja - é a garantia de que a sorte, quando vier, será reconhecida e nos abraçará. Preparação, prontidão, treinamento constante, essa é a chave.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Estratégia Social XVI

Nascer na época certa

Baltasar Grácian: Os sujeitos de qualidades extraordinárias dependem do tempo em que vivemos. Nem todos tiveram a época que mereciam, e muitos que tiveram não souberam aprovietá-la. Alguns mereceram tempos melhores, pois nem tudo o que é bom triunfa sempre. Todas as coisas têm suas estações, até os valores estão sujeitos à moda. Mais o sábio tem uma vantagem: é eterno. Se este não é seu séculos, muitos outros serão.

ATENA: Saber apreciar o próprio valor é algo que integra o caráter dos grandes heróis de todos os tempos. Compreender a real dimensão, micro ou macro, dos esforços cotidianos, é o que dá verdadeira voz interior e força de vontade para a realização das mais extenuantes tarefas. Saber antecipar o que está além, quais os valores envolvidos e o tamanho da recompensa - seja no âmbito que for - que advém. Algumas causas valem determinados sacrifícios, não é tanto uma questão de cálculos, como uma questão de valores, eixo da verdadeira liderança.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Liderança e Maturidade

A marca da liderança

A verdadeira marca de um líder é a vontade de ficar com um curso de ação ousada - uma estratégia de negócios não convencionais, um roteiro de desenvolvimento de produtos únicos, uma campanha controversa - assim como o resto do mundo se pergunta por que você não está em marcha passo a passo com o status quo. Em outras palavras: os verdadeiros líderes criam suas próprias tendências e lógicas de trabalho enquanto outros vagueiam atrás dos modismos estrategicamente disseminados na mídia. Eles entendem que, numa era de hiper-concorrência e perturbações “non-stop”, a única maneira de se destacar da multidão é a favor de algo especial. Esse algo especial necessita de um envolvimento pessoal e isso só se dá de suas maneiras:

Paixão
O primeiro é obtendo um envolvimento afetivo no processo de liderança, ou seja, deixar-se “apaixonar” por ele. O envolvimento pode ser por meio da raiva represada por qualquer motivo, da agressividade que necessita encontrar vazão e lhe fornece energia extra para novos trabalhos, da paixão por uma determinada idéia, do carinho para com determinada empreitada ou causa. Sem paixão a liderança vira rotina e se perde no fácil caminho dos modismos. Crie seu diferencial, apaixone-se!

Caráter
É importante estabelecer o seu estilo e, para que ele possa ser mantido (principalmente por você), é imprescindível que ele tenha a ver com o seu caráter pessoal. Ninguém consegue passar a maior parte da vida (acostume-se com a idéia, a maior parte da sua vida você passa trabalhando) representando um papel. Só para mencionar alguns riscos, do mais leve para o mais grave: deficiência cognitiva (dificuldade de aprender, memorizar e raciocinar), perturbação do processamento da informação e da comunicação, crises existenciais, desestruturação da personalidade e por aí afora. Portanto, antes de mais nada, trate de se conhecer! Só conhecendo bem seus alicerces um líder pode saber onde e como pode também, servir como um para a sua meta (seja ela uma empresa, sua carreira ou um grande projeto em específico).

Saber nada sobre tudo ou saber tudo sobre nada?
Dificilmente alguém será bom o suficiente para ser “bom em tudo” hoje. Mesmo os que passam essa idéia gastam rios de recursos com seus assessores e marqueteiros para construir essa imagem surreal de si mesmos e acabam virando alvos não só de admiração, mas também da inveja e dos gracejos alheios. Quanto mais perto estamos desses super-profissionais mais percebemos os grandes sacrifícios que fazem para manterem sua altíssima performance. Em geral esses sacrifícios acabam culminando em infartos, ataques cardíacos, acidentes vasculares etc. Para manter uma saúde relativamente boa, digna de quem compreende que a liderança é um processo que comporta vários tiros de 200 e 400m antes que se possa olhar para trás e perceber que corremos os 42km de uma maratona, é importante percebermos o poder do foco e da oportunidade.


Foco
Que tal se concentrar em um diferencial que esteja diretamente ligado ao seu caráter enquanto indivíduo e à sua meta enquanto profissional? Você pode ser: o mais elegante, o mais eficaz, o mais confiável, o mais focado, o mais estável, o mais amigável, o mais flexível etc.
Durante décadas, as organizações e seus líderes eram confortáveis com as estratégias e práticas que os mantinham no meio da estrada - que é onde os clientes estavam, isso é, onde se sentiam seguros e tranqüilos. Isso exigia ser muito bom em muita coisa, para demonstrar diferenciais estando sempre no mesmo rumo de seus concorrentes.

No novo mundo dos negócios, com toda a pressão midiática e profissional sobre a “mudança” (o fato da palavra estar como um predicado solto é mais um dos inúmeros fatores de instabilidade na mente do funcionário e do líder corporativo, a tal “mudança”, imperativa e incerta, espreita como uma armadilha eterna num tabuleiro de xadrez cujas cores dos quadrados mudam como numa danceteria), com tantas novas maneiras de fazer quase tudo, o meio da estrada tornou-se a estrada para lugar nenhum.

"Não há nada no meio da estrada, só listras amarelas e tatus mortos." - Jim Hightower

Ao que poderíamos acrescentar que, atualmente, as empresas e seus líderes lutam para fora da multidão, até mesmo quando eles jogam pelas mesmas regras em um mercado lotado de concorrentes, variantes e estímulos.


Oportunidade
O conceito de “oportunidade” é estudado a fundo pelo renascentista e filósofo político italiano Nicolau Maquiavel e não é à toa que muitos dos grandes líderes de todos os tempos têm como livro de cabeceira obras suas como “O Príncipe” e “A Arte da Guerra”. A oportunidade, ou a “occasione” como o pensador florentino a chamava, era justamente a habilidade que o “condottieri” (o “condutor” ou “líder”) deveria desenvolver para identificar e também para – preferivelmente - criar a melhor situação possível para realizar uma determinada ação. Dentro de uma teoria dos sistemas seria encontrar (ou influenciar para que se forme) a melhor configuração possível para depois implementar uma mudança dentro do sistema. Não é à toa que muitos cientistas políticos, especializados na obra de Maquiavel, têm sido contratados para formular estratégias empresariais junto a grandes administradores.

Não pensar diferente nem igual, pensar por si
É difícil superar a força da sabedoria convencional - formas estabelecidas de fazer as coisas, as formas familiares dos tamanhos dos mercados, seus ditames e modismos. É por isso que é difícil para muitos dirigentes fazerem algo realmente novo, efetivamente abraçar idéias únicas e inovadoras em um mundo cheio de pasteurização do pensamento. Creio que esse pequeno texto possa ser uma descrição sumária de algumas funções de liderança hoje.

Que hajam os líderes institucionais, os chefes e diretores burocráticos, como cientista político compreendo muito bem sua existência, mas na era da informação insandecidamente rápida e desordenada, precisamos de cérebros criativos, de seres humanos capazes de efetivamente concatenar idéias em torno de um único fim e tudo isso de forma inusitada, que demonstre um diferencial que agregue valor. Perdoem-me os que já conhecem a idéia, mas a melhor forma de finalizar esse pequeno artigo me parece ser citando um dos nossos maiores gênios:

“Para mim a melhor definição de loucura é ter sempre o mesmo comportamento e esperar resultados diferentes” - Albert Einstein

Texto: Renato Kress
Diretor do Instituto ATENA
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quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Estratégia Social XI

Cercar-se de auxiliares competentes

Baltasár Gracián: Os poderosos são felizes quando cercados de valentes de notável entendimento, capazes de livrá-los das enrascadas em que foram colocados pela própria ignorância, e de tomarem seu lugar contra as dificuldades. Saber utilizar os sábios constitui uma qualidade única: melhor do que escravizar os reis, como fazia Tigrano(1). É uma nova maneira de dominar os outros no que tange o melhor da vida: transformar com arte em servidores aqueles que a natureza fez superiores. Temos pouco para viver e muito para saber, e não se vive sem saber. Requer uma habilidade notável estudar e aprender sem esforço; estudar muito por meio de muitos, e saber mais do que todos eles juntos. Faça-o, e falará por muitos em qualquer reunião. Falará por tantos sábios quantos o precederam, e ganhará fama como oráculo graças ao suor dos outros. Escolha um tema e permita às cabeças que o rodeiam proporcionar-lhe um conhecimento concentrado. Se não pode fazer do conhecimento seu servo, torne-o seu amigo.

ATENA: Talvez a habilidade mais importante de um bom líder, qualquer que seja o ramo em que atue, seja justamente saber coadunar e gerenciar o maior número dos melhores talentos que puder conceber em prol de sua "causa", de sua "idéia", de sua "missão". Esse talento requer habilidade (e humildade) para reconhecer talentos superiores aos seus e principalmente convergentes com os teus, complementares, requer saber gerenciar os egos e os relacionamentos quando da criação de um grupo e requer, principalmente, a habilidade de saber "apaixonar" os que estão à sua volta, contaminá-los com os valores que estão impregnados nos teus objetivos. Em qualquer circunstância na vida é preciso saber aprender algo, mesmo que seja aprender como evitar algo ou como não agir em determinada situação. Para quem tem olhos para ver e uma mente astuta para antecipar e aprender, o universo é um mapa estraordinário.

(1) Rei da Armênia (século I a.C.) que conquistou a pátria e costumava aparecer em público servido pelos príncipes que derrotava.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Estratégia Social X

Realidade e também modos

Baltasár Gracián: Não basta a substância, é necessária também a circunstância. O mau jeito estraga tudo, inclusive o que é justo e razoável. Já a maneira correta repara tudo: abranda uma negação, adoça a verdade e até faz a velhice parecer bonita. O como das coisas é muito importante, e um comportamento correto conquista a afeição dos outros. O bel portarse é algo precioso na vida. Fale e comporte-se bem, e promoverá o seu sucesso.

ATENA: Um dos maiores aprendizados da liderança, seja no campo em que for, é o senso de "oportunidade", o que Nicolau Maquiavel chamava de "occasione", a ocasião adequada de agir. Todo o conteúdo do mundo não serve de nada se não temos a sensibilidade de percebermos o momento adequado de começarmos a expô-lo. Como em qualquer luta o golpe mais reto e rápido, com a força mais intensa é descarregado no vazio se não obtém a abertura certa, e, invariavelmente expõe o atacante a um contragolpe tão ou mais fulminante do que o que foi desferido. Atente para a "guarda" mental, física, emocional do universo ao seu redor e prepare-se, treine, para que não haja força no universo que te faça hesitar na oportunidade certa.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Estratégia Social IX

Agir com intenções: seja segunda ou primeira

Baltasár Gracián: A vida do homem consiste numa milícia contra a malícia do homem. A astúcia luta com estratégias de intenção. Nunca faz o que indica. Aponta para enganar, golpeia indiferente no ar e desfere o golpe, atuando sobre a realidade imprevista com dissimulação atenta. A fim de consquistar a atenção e a confiança dos outros, deixa transparecer um intento. Logo em seguida, porém, muda de posição e vence pela surpresa. A inteligência perspicaz previne-se da astúcia observando-a detidamente, espreita-a com cuidado, entende o oposto do que a astúcia quis que compreendesse e percebe de imediato as falsas intenções. A inteligência ignora a primeira intenção, aguardando a segunda, e até a terceira. A simulação cresce mais ainda ao ver seu truque descoberto e tenta enganar contando a verdade. Muda de jogo, engana com sua aparente falta de malícia. sua astúcia se baseia na maior franqueza. Mas a observação se adianta, discernindo através de tudo isso, percebendo as sombras envoltas em luz. Decifra a intenção, que mais parece singela. Assim é a astúcia da serpente Píton contra a franqueza dos penetrantes raios de Apolo.

ATENA: A disputa de malícias e inteligências faz parte do caldeirão de forças que se comungam quando colocamos seres humanos em contato. Todos temos nossos interesses e interesses são normais, inerentes à espécie humana. Quando um deseja conforto e precaução para a família outro deseja salvar a própria pele ou a própria honra mesmo sem considerar o que fosse mais justo para os demais. Nada disso impede que muitos lutem pela seriedade ou clareza nos processos administrativos, sejam públicos, sejam privados, ou pela vida de expécies em extinção. Apenas é necessário, nesse jogo, procurar as astúcias mais danosas ao coletivo e limitar seu raio de ação para que não venham a prejudicar o todo em salvaguarda de poucas partes. Perceber que a malícia vai usar do seu último recurso - falar a verdade - como artifício para manter-se de pé, é saber o momento exato em que ela pode ser exposta e, se necessário, aniquilada.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Estratégia Social VIII

Natureza e arte, matéria e obra

Baltasár Gracián: Toda beleza requer ajuda. A perfeição se transforma em barbárie quando não é enobrecida pelo artifício. O artifício resgata o mau e aperfeiçoa o bom. A natureza costuma nos deixar quando mais precisamos dela; recorramos à arte. Sem ela o melhor talento é grosseiro, e, sem cultura, as qualidades ficam pela metade. Sem artifício o homem parece bruto e rude. A perfeição exige polimento.

ATENA: A essência de qualquer arte é o treinamento. Aperfeiçoamento constante é mais do que simplesmente o treinamento nos proporciona, é o que o mundo exige. Polir os talentos brutos, enobrecer as habilidades inatas pelo crivo da preparação, é o que torna os novatos líderes, e o que mantém os líderes como tais, fazendo deles eternos inovadores. Só os que possuem maestria em determinada habilidade são capazes de improvisar e criar, mantendo o universo ao redor assombrado com a constância da inovação que só o talento com a experiência podem promover.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Estratégia Social VI

Desmentir os defeitos de seu país

Baltasár Gracián: A água absorve as boas e as más qualidades dos leitos que percorre; os homens partilham as da região em que nascem. Alguns devem mais que outros a seu país ou cidade natal, pois nasceram sob céus auspiciosos. Nenhum país, nem mesmo o mais culto, deixa de ter defeito peculiar e tais fraquezas servem de defesa ou consolo às nações vizinhas. É vitoriosa destreza corrigir ou ao menos ocultar tais falhas. Agindo assim, você será reverenciado como único entre seu povo; pois o menos esperado é o mais valorizado. Outros defeitos tem como causa a linhagem, a condição, a ocupação e a idade. Todos esses defeitos, quando coincidem num único sujeito e não se toma nenhum cuidado para preveni-los e corrigi-los, produzem um monstro insuportável.

ATENA: As eternas disputas entre a "civilizatión" francesa - os modos e costumes que se pretendiam universais e universalizantes - e a "kultur" alemã - a valorização dos costumes locais e da riqueza da história com seu "saber local" - fomentaram duas formas completamente diferentes no que concerne ao estilo e à forma de lidar com o mundo e o universo ao redor. Essas questòes já criaram richas e até guerras entre Estados. O importante dessa pequena estratégia social é perceber que ir além dos rótulos culturais é dar a si mesmo a chance de surpreender os "de fora" pela novidade e ser único e valorizado entre os "de dentro" pela singularidade. Angariar para si mesmo predicados como "surpreendente" e "único" é sempre uma ótima estratégia social

terça-feira, 10 de agosto de 2010

O Morno: liderança e fluxo energético


A liderança é uma tarefa que exige alto grau de energia, tanto a energia concentrada, necessária para focarmo-nos em um projeto ou campanha específica por um longo período de tempo, quanto a energia dispersa, utilizada para lidar com vários assuntos de diferentes naturezas concomitantemente. Ao contrário do que postulavam os filósofos do liberalismo clássico, o ser humano não é uma máquina capaz de realizar trabalho em troca de parcos momentos de descanso, com jornadas de trabalho exaustivas, má alimentação e nenhum cuidado ou consideração para com seu aparato psicológico. O ser humano produz mais - esteja ele numa posição de liderança ou não - se mantiver um fluxo alto de energia para a realização das atividades diárias e esse "alto" fluxo energético depende de vários fatores, como:

1. Boa Alimentação (nutrição adequada)
2. Espaço para a manifestação e desenvolvimento de suas idéias
3. Sentir-se bem desafiado
4. Bom desacanso
5. Sentimento de pertença (familiaridade) com o trabalho
6. Envolvimento emocional com o trabalho
7. Sentir-se valorizado quando merece
8. Espaço e motivos para ampliação dos seus conhecimentos

Se buscarmos, apenas por uma questão de entendimento, divivir essas necessidades naturais do ser humano na posição de líder em formas mais fáceis de compreender, teríamos algo próximo da clássica leitura grega do ser humano sobre quatro elementos.

Sob os aspectos, digamos, "terrenos", teríamos:
1. Boa alimentação
4. Bom descanso.

O corpo é o único instrumento de que dispomos para manifestar nossa vontade no mundo real. Nossos pensamentos, projetos e idéias não são escutados, nossos sentimentos não evocam nenhuma percepção, solidariedade ou asco a não ser por vias corporais. O corpo é nossa base e é cuidando dele que podemos trabalhar todos os outros aspectos de nosso ser.

Hoje em dia ter uma boa alimentação depende muito mais de uma adequada capacidade de organização do tempo e de auto-controle do que efetivamente de "cozinhar a própria comida", algo saudável, mas verdadeiramente improvável. Conceitos como "prato colorido", "de três em três horas" e "leve antes de dormir" já são bons indícios de que a sociedade tem percebido e disseminado regras construtivas sobre alimentação.

Tanto para a alimentação como para o descanso a lógica permanece a mesma: é praticamente impossível, no ritmo de vida cotidiano, esperar efetivamente alimentar-se e descansar-se devidamente todos os dias, mas é perfeitamente possível e mesmo desejável orientar-se no sentido de "compensar" as faltas, tanto no que tange a nutrição quanto ao descanso. Virar a noite debruçado num projeto que exige nossa força de vontade, concentração e nos envolve emocionalmente é até prazerozo, mas após a entrega ou apresentação desse projeto o mais saudável a se fazer é tomar um bom chá calmante, apagar todas as luzes, tirar o telefone do gancho e deixar teu corpo te acordar.

Sob os aspectos, digamos "aquáticos", teremos:
5. Sentimento de pertença (familiaridade) com o trabalho
6. Envolvimento emocional com o trabalho

É impossível ser um líder, ser um referencial de crédito, autoridade e poder se você não se identifica com o que faz. A não ser o líder institucional, que cumpre um cargo eletivo dentro de uma estrutura sob a qual ele se submete a uma posição de liderança mais do que busca. O líder deve inspirar o ambiente ao redor e, para isso, ele deve estar inspirado. O trabalho deve ser natural para ele, como uma extensão da própria existência e do seu próprio modo de ser.

O sentimento de pertença, a familiaridade com as pessoas, o ambiente, os comportamentos propícios, os valores envolvidos naquela atividade produtiva é que vão dar a ele a real dimensão de quem é e do que faz ali. Sem isso não há o envolvimento emocional necessário para dar significado e credibilidade para o líder.

Sob os aspectos digamos, "aéreos", teríamos:
2. Espaço para a manifestação e desenvolvimento de suas idéias
8. Espaço e motivos para ampliação dos seus conhecimentos

Um trabalho realmente envolvente tem de possuir algum nível de desafio intelectual. Lidar com problemas de relacionamento de funcionários diariamente pode ser um nível de desafio interessante para alguns líderes, outros preferem organizar uma solução que minimize esse aspecto e abra espaço para novos e maiores problemas que, com certeza, surgirão.

É grande hoje em dia o número de empresas que investe na formação intelectual dos seus profissionais, pagando cursos de idiomas, faculdades, mestrados, doutorados etc. Algumas empresas chegam mesmo a criar suas próprias faculdades internas, como a Valer, da Vale. A ampliação de conhecimentos, a valorização da "prata da casa" deve ser sempre compatibilizada com o aumento do grau de desafio a que o funcionário está submetido, assim como é imprescindível que ele veja claramente a ligação entre o curso que está fazendo e o papel profissional que desempenha.

Finalmente sob os aspectos "ígneos" teríamos:
3. Sentir-se bem desafiado
7. Sentir-se valorizado quando merece

Sem desafio não há liderança pelo simples fato de que o líder não se sente motivado o suficiente para angariar recursos e desenvolver habilidades, gastar tempo e dispender energia para executar nada e, também, ninguém se sente interessado em fazer parte de um grupo que não vai de encontro a um grande e válido desafio que guarde uma recompensa valorosa.

Da mesma forma empreender uma jornada de trabalho, movimentar pessoas, idéias, relacionamentos, contatos, ferramentas e habilidades para alcançar um determinado patamar, fechar um determinado negócio ou produzir algo totalmente novo e inusitado e não ser devidamente valorizado é uma das maiores frustrações, um dos grandes motivos da proliferação de psicopatologias em profissionais de alto desempenho. É necessário que se possibilite, ao vencedor, sua devida parcela de "honra ao mérito" de ter realizado o que se propôs e que, fosse fácil ou difícil, antes não estava feito e agora está e está graças àquele que arregaçou as mangas, foi lá e fez.

A importância do equilíbrio
A noção de equilíbrio nos seres humanos é algo muito interessante e é através dela que trataremos a liderança no final deste artigo.

Aprendemos a noção de equilíbrio desde cedo, no movimento do berço, no balanço que nina o bebê e modifica seu estado de espírito, seu humor. Futuramente levamos essa idéia de equilíbrio para conceitos mais abstratos como a justiça ou a saúde. Eventualmente podemos levar essa mesma noção à observação de um quadro, no seu equilíbrio de cores etc.

Da mesma forma devemos atentar para o equilíbrio nas relações no que tange aos aspectos relacionados acima, ou seja: o fluxo de energia, do muito para o pouco, do pouco para o muito ao longo do dia, seja na alimentação, no descanso, no entender-se como parte integrante de um projeto e identificar-se com ele, no sentirmo-nos intelectualmente desafiados e no considerarmo-nos valorizados quando justo. Essas dimensões criam uma espécie de campo em que essas forças operam, nossos aspectos terrenos, aquáticos, aéreos e ígneos.

Operar o fluxo de energia dentro desse "campo de forças" do trabalho é saber, por exemplo, quando uma discussão se opera por uma questão prática, técnica, emocional ou por uma questão de ego dos envolvidos. Saber diagnosticar e agir pontualmente sobre o problema real é, enfim, não deixar se instalar o "morno", a inércia, o não-fluxo, a tão temida "zona de conforto" de que falam os especialistas em comportamento corporativo, a falta desse fluxo natural é o causador dos maiores problemas no que tange à liderança.

Texto: Renato Kress
Diretor do Instituto ATENA
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sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Estratégia Social V

Não eclipsar o patrão

Baltasár Gracián: Toda derrota provoca ódio, e superar o chefe tanto é tolo quanto fatal. A supremacia é sempre detestada, em especial pelos superiores. O sábio deve ocultar as vantagens comuns, assim como se disfarça a beleza com um toque de desalinho. A muitos não incomoda ser superado em riqueza, caráter ou temperamento, mas ninguém, em especial um soberano, gosta que lhe excedam em inteligência. Trata-se, afinal, do maior dos atributos, e qualquer crime contra ele constitui lesa-majestade. Os soberanos querem sê-lo no que é mais importante. Os príncipes gostam de ser ajudados, mas não sobrepujados. Ao aconselhá-los, faça como se os lembrasse de algo esquecido, não como se acendesse a luz que ele é incapaz de ver. Os astros nos ensinam tal sutileza. São filhos e brilhantes, mas nunca rivalizam com o sol.

ATENA: Lidar com o ego alheio pode ser uma das tarefas mais complicadas na contemporaneidade. Muitos líderes simplesmente tem pânico a que qualquer outro indivíduo possa eclipsar suas idéias e, principalmente, sua importância. Muitas vezes têm dificuldades de compreender que o talento se lapida nos desafios e, ter um bom desafio interno, principalmente se for alguém hierarquicamente inferior a você, é uma forma poderosa de manter-se "afiado", diariamente. Numa situação em que as idéias de um colega ou funcionário venha a lhe surpreender, surpreenda a todos aproveitando aquela mesma idéia como um trampolim para ir além e não recuse imediatamente, o que daria a certeza do ego ferido e da disputa que se perde para além do objeto do trabalho.

Estratégia Social IV

Alcançar a perfeição

Baltasár Gracián: Ninguém nasce perfeito. Deve se aperfeiçoar dia a dia, tanto pessoal quanto profissionalmente, até se realizar por completo, repleto de dotes e de qualidades. Será reconhecido pelo requintado gosto, inteligência aguda, intenção clara, discernimento maduro. Alguns nunca se realizam, falta-lhes sempre alguma coisa. Outros requerem um longo tempo para se formar. O homem completo - sábio na expressão, prudente nas ações - é aceito, e até desejado para privar do seleto grupo dos discretos.

ATENA: O que se considera, aqui, como "perfeição" é o agir discreto, algo muito próximo da concepção chinesa de não-ação, oriunda da filosofia política e econômica de raiz taoísta. Seguir o fluxo das ações para apenas influenciá-lo no momento em que, simultaneamente, nós empreendamos o menor esforço possível para conseguir o maior resultado dando a menor impressão de termos influenciado no processo. É algo sublime que poucos líderes e estrategistas conseguem. Numa metáfora musical seria como o improviso no Jazz, sem que deixemos de ouvir e reconhecer, todos, a mesma música.

Estratégia Social III

Conhecimento e coragem se alternam na grandeza

Baltasar Gracián: Sendo imortais, imortalizam. Você é tanto quanto sabe, e se for sábio é capaz de tudo. Homem sem saber, mundo às escuras. Discernimento e força; olhos e mãos. Sem valor, a sabedoria é estéril.


ATENA: Conhecimento não é nada sem um eixo doador de sentido, sem uma base de sustentação para o desenvolvimento do saber criativo, da arte na criação do impensado, do surpreendente. Quando Gracián nos fala de olhos e mãos estamos às voltas com o visual e o cinestésico, com o processamento cognitivo celerado da mente e o processamento experimental vivencial do corpo, é deles que parte o discernimento e a força, motrizes da coragem que não é a ausência de medo, mas justamente uma vivência do valor, que traz a compreensão de que algo é mais valioso (ou valoroso) que o próprio medo.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Estratégia Social II


Manter o suspense

Baltasar Gracián: O êxito inesperado ganha admiração. O que é óbvio não é nem útil nem de bom gosto. Não se declarar de imediato atiça a curiosidade, em especial se a posição é importante o bastante para causar expectativas. O mistério, por sua característica arcana, provoca veneração. Mesmo ao revelar evita a franqueza total e não permite que todos venham a franquear o teu íntimo. É no silêncio cauteloso que a sensatez se refugia. As decisões, uma vez declaradas, nunca granjeiam estima e expõem a censura. Se desacertadas, estará duplamente desgraçado. Se quiser atenção e desvelo, imite a divindade.


ATENA: O segredo, muitas vezes, é a alma do negócio. Numa sociedade onde a troca de informações é quase que uma necessidade, principalmente entre o setor que mais cresce da economia, que é o de bens e serviços, manter um segredo comercial ou industrial é um grande desafio. Tenha projetos secretos. Mencione-os imediatamente antes de dizer que eles são secretos e virão à tona quando lhes for mais propício. Alguns segredos de produtos ou campanhas de sucesso estão na forma, na disposição, mais do que no conteúdo explícito dos mesmos. Outros podem estar num ingrediente secreto, numa determinada atmosfera (luminosidade, cores e odores, rituais, discursos que acompanham o produto ou serviço) que envolve a relação com o projeto. O importante é estabelecer os diferenciais perceptíveis e os diferenciais, digamos, 'subliminares'. Um dos mais sábios ditados da máfia italiana diz: "O Capo (chefe) uma parte do plano a um, outra parte a outro, todas as partes a ninguém."